Qualidade microbiológica
Alguns contaminantes podem trazer odores indesejados para a água, e posteriormente causar off-flavors em sua cerveja, portanto é altamente recomendável que você não se descuide nesse aspecto. Alguns off-flavors típicos de contaminação da água são aromas de “terra” ou “mofo”.
Existe também o risco de que bactérias presentes na água residual de enxague de tanques e embalagens possam se desenvolver na cerveja e formar outros off-flavors. A tendência atual nas cervejarias é o uso de sanitizantes que não possuam necessidade de enxague, como por exemplo o ácido peracético (saiba mais em Sanitizantes). Falando em termos práticos para o cervejeiro artesanal, os cuidados microbiológicos que se deve ter com a água se resumem basicamente ao enxague de equipamentos usados na “parte fria” do processo, ou seja, equipamentos utilizados no resfriamento de mosto, aeração, fermentação, maturação, filtração e envase. O uso de água com algum residual de cloro é eficaz, porém os resíduos podem causar off-flavors quando combinados com polifenóis presentes na cerveja (aromas que lembram “hospital” ou “desinfetante”). Então o mais recomendado para o enxague é o uso de água declorada contendo um sanitizante a base de ácido peracético, por exemplo. Vapor ou água quente, no caso de garrafas e certos equipamentos, são também alternativas que vêm apresentando bons resultados. Tudo isso, é claro, desde que a limpeza tenha sido feita de modo adequado.
Qualidade físico-química
Aqui, estamos tratando basicamente de quais sais estão presentes e em que quantidade na água utilizada. Uma questão bastante interessante também é a do pH da água utilizada na fabricação do mosto. Veja mais em pH da água x pH da mostura
Os sais dissolvidos na água formam íons, que podem ter influência importante em alguns aspectos do processo. Os íons mais comumente encontrados são:
Cálcio (Ca++)
- Acidifica na mostura e na fervura, precipitando fosfatos, e com isso aumenta a ativididade enzimática,
- ajuda na extração do mosto secundário diminuindo a viscosidade
- reduz a extração de taninos (polifenóis)
- melhora a clarificação precipitando proteínas
- importante na floculação e sedimentação do fermento.
- Não tem efeito direto no sabor, apenas através do seu efeito no processo.
- Usualmente presente entre 50 e 100ppm.
Magnésio (Mg++)
- Acidifica como o cálcio, precipitando fosfatos, em menor proporção.
- Importante nutriente para o fermento (10 a 20)ppm.
- O malte já tem uma quantidade significativa de Mg.
- Em excesso (acima de 30ppm), contribui com amargor desagradável.
Sódio (Na+)
•
- Importância menor no processo
- Afeta o sabor da cerveja, aumentando as sensações de corpo e doçura. Desagradável em excesso.
- Desagradável na presença de sulfato; quanto mais sulfatos, menos sódio, e vice-versa, sendo 100ppm de sulfato de sódio o limite para essa combinação.
Cloreto (Cl-)
- Não é importante no processo em quantidades normais
- Afeta o sabor da cerveja, aumentando a sensação de corpo e a doçura do malte, principalmente quando em combinação com sódio
Sulfato (SO4–)
- Ajuda a degradação do amido e das proteínas e ajuda na filtragem e na formação do trub. Melhora o sabor do lúpulo e diminui o seu amargor.
- Favorece um paladar mais seco.
Bicarbonato (HCO3-)
- Alcalino.
- Dificulta a ação da alfa-amilase.
- Dificulta o cold break.
- Aumenta o amargor, mas de maneira desagradável.
As águas minerais brasileiras em geral contém poucos sais, portanto podem ser excelentes “bases” para a água dos seus produtos. As águas de “torneira”, embora em geral também com poucos sais, contém cloro, e caso utilizadas devem passar por um filtro declorador.
Boa parte da “fama” da água como ingrediente vem do fato que a composição da água foi fundamental para certos estilos de cerveja, como as ales inglesas e as pilsen européias.
Você pode simular a água de diversas regiões, de acordo com o estilo da cerveja que você quer, dosando sais na sua água “base”. Alguns softwares cervejeiros ajudam bastante nessa tarefa.
Exemplos de composições de águas em diferentes cidades. (fonte: How to brew – J.Palmer)
•
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Cidade
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Cálcio
(Ca+2)
|
Magnésio
(Mg+2)
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Bicarbonato
(HCO3-1)
|
Sulfato SO4-2
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Na+1
|
Cl-1
|
Estilo
|
|
Pilsen
|
10
|
3
|
3
|
4
|
3
|
4
|
Pilsener
|
|
Dortmund
|
225
|
40
|
220
|
120
|
60
|
60
|
Export Lager
|
|
Vienna
|
163
|
68
|
243
|
216
|
8
|
39
|
Vienna Lager
|
|
Munich
|
109
|
21
|
171
|
79
|
2
|
36
|
Oktoberfest
|
|
London
|
52
|
32
|
104
|
32
|
86
|
34
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British Bitter
|
|
Edinburgh
|
100
|
18
|
160
|
105
|
20
|
45
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Scottish Ale
|
|
Burton
|
352
|
24
|
320
|
820
|
44
|
16
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India Pale Ale
|
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Dublin
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118
|
4
|
319
|
54
|
12
|
19
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Dry Stout
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Pilsen - Dureza e alcalinidade baixas não interferem de modo importante no pH da mostura. Baixos teores em sulfato não intensificam demais o amargor do lúpulo, evitando que este amargor se sobressaia demais em relação aos aromas suaves do malte e aos aromas do próprio lúpulo.
Dortmund - Outra cidade famosa por suas lager claras. Sua Dortmund Export é menos lupulada que uma Pilsen, com aromas de malte mais ressaltados, para o que contribuem também os minerais presentes na água típica da região. A proporção de minerais é similar à de Viena, embora as cervejas típicas sejam diferentes em especial na cor e no corpo.
Vienna - Água similar a de Dortmund, embora níveis menores em cálcio, sódio e cloretos, o que desfavorece o corpo em relação àquela água. Para compensar essa diferença, maltes mais escuros foram adicionados, resultando nas famosas lagers avermelhadas.
Munich - Moderado teor mineral, embora a alcalinidade promovida pelos carbonatos seja elevada. A suavidade ao paladar das Dunkel, Oktoberfests e mesmo das Bocks, mostra o sucesso no uso de maltes escuros, acidificando a mostura e balanceando o excesso de carbonatos. O teor baixo em sulfatos também ajuda a ressaltar o malte em relação ao lúpulo nesses estilos.
London - O nível alto de carbonatos igualmente favoreceu o uso de maltes mais escuros, embora nessa região os cloretos e o sódio contribuam para a suavidade e corpo. O resultado, as conhecidas Porters rubi-escuras e as Pale-Ales acobreadas.
Edinburgh - Típicas Strong Scottish Ales – reflexos rubi-escuros, maltada com lúpulo suave. A água, similar à londrina, porém com teor maior em bicarbonatos e sulfatos, facilitando o uso de uma base mais “pesada” de malte.
Burton-on-Trent - Comparado a Londres to London, os níveis de cálcio e de sulfatos são mais elevados. O teor de sulfatos elevado juntamente com o sódio mais baixo enaltece o amargor do lúpulo. Comparadas às ales de Londres, estas são mais claras e mais amargas, porém balanceadas com corpo e teor de álcool maiores.
Dublin - Famosa pela sua stout, Dublin tem um dos mais altos teores de bicarbonato das ilhas britânicas, aproveitado com o uso intenso de maltes escuros e torrados. Os níveis baixos de sódio, cloreto e sulfate não atrapalham o uso de lúpulo em quantidade suficiente para equilibrar o malte.
Veja mais…
Exemplos de composições de águas minerais brasileiras. (fonte: Revista da Associação Médica Brasileira – M.A.P. Rebelo, N.C Araujo )